Carta de Despedida

Carta de Despedida

 

Caríssimo Bacelar,

Nesta última celebração dominical da PU, pelo menos contigo e nestes moldes, não podíamos deixar de te escrever uma carta. Ao longo de dezenas de domingos (tantos e que já nos parecem tão poucos!), fomos ouvindo as cartas que, de vez em quando, partilhavas connosco no lugar de Homilia — uma forma renovada de pensar com ou a partir das leituras da Bíblia, que já trazes inventada dos teus tempos de Pároco das Antas.

Saberás que muito apreciamos esse teu modo de interpelar destinatários saídos dos Evangelhos, tanto os mais evidentes como aqueles de quem pouco se sabe, porque são presenças muito discretas nas palavras que recebemos como fonte de vida há cerca de dois milénios. Quando te dirigias a eles ou a elas, sob a forma ao mesmo tempo coloquial e irremediavelmente distante de uma carta, era a nós todos (tu incluído) que te dirigias, expondo as questões ou as inquietações que continuam a ser as nossas, na continuidade dos seus testemunhos e dos seus silêncios.

Nunca nos leste uma carta de resposta, porque, naturalmente, nenhum desses destinatários te escreveu. Seria um acto de “contra natura”, uma inverosimilhança, só aceitável nos domínios imaginários da arte. Receber uma carta de volta seria como receber um oráculo, e nós sabemos que a Palavra de Deus, espraiada ao longo dos muitos livros da Bíblia, não pertence ao mundo da adivinhação, por muito que, às vezes, gostássemos de conhecer os resultados antes do final dos jogos da vida…

Seja como for, esta missiva é dirigida a ti, reverendo padre. E porque assim é, temos por certo e verdadeiro que em este mundo, o Senhor de todas as cousas que é Deus, te constituiu e estabeleceu na grande casa da sua santa religião pera, em seu nome, ministrares a todos nós, seus servos e filhos, doutrina santa e ensinança especial pera salvação de nossas almas. E disto não duvidamos, pois, inteiramente guardado este caminho, o pastor que és conhecerá sempre a voz das suas ovelhas, que somos nós outros.

Porém, certo é que Nosso Senhor Jesus Cristo, por sua bondade e misericórdia, ordenou que todos fossemos juntos, como de facto somos pelo laço da caridade, até entrarmos na glória de Deus. Do mesmo modo que nas cousas naturais, também tu és a cabeça, a qual, posto que seja a mais alta parte do corpo e a mais principal, não pode estar sem o serviço dos outros membros e, por igual razão, também os referidos membros sem a sua cabeça não se podem manter nem governar. Desta guisa, nós contigo e tu connosco havemos de nos salvar a todos juntamente, e poderemos receber a eterna graça que nos foi prometida se perseverarmos com boa obediência nos santos mandamentos de Deus.

Pelo que fica exposto, nós, as ovelhas, que pelo pecado dos primeiros pais do estado da inocência caímos na ignorância, rogamos a Deus, que é lume que alumia todos os homens que vêm ao mundo, que através de ti nos iluminasse daquela sabedoria que escondeu aos soberbos e poderosos e revelou aos pequeninos e humildes.

Ao longo destes muitos domingos congregou-se aqui uma comunidade diversa que, à semelhança de muitas outras comunidades, antigas e novas, juntou gentes diversas, nas línguas, nas idades, nos saberes (e na pontualidade!…). Se nos juntamos aqui foi porque, através da tua palavra, do teu testemunho vivencial e da tua presença amiga e serena, Deus se fez menos ausente nas vidas de correrias e de omissões que levamos. Se o evangelista João (ou quem por ele escreveu aquelas belas palavras) nos começa por dizer que no princípio era o Verbo e que o Verbo encarnou, ao longo destes anos a tua palavra nos ajudou a (re)descobrir Sentido e sentidos na mensagem libertadora e na proposta de amor que o Pai nos faz. Quantas vezes saímos daqui reconciliados com uma Vida que, não raras vezes, nos parece mais pesada e difícil do que poderia ser se atendêssemos mais ao essencial e menos às aparências que nos distraem, constrangem e nos desanimam.

Como alguns de nós são economistas (sim, ninguém é perfeito, isso recorda-nos a doutrina cristã, embora nalguns casos a imperfeição seja mais gravosa…) a nossa visão do Mundo e da Vida é também moldada por essa formação. Assim, poderíamos dizer que a tua presença foi um bem público, conceito que aprendemos na Economia Pública (e de grande debate entre os especialistas) e que caracteriza aqueles bens cujo consumo é não rival e não excludente. Se por um lado a dádiva que tens sido para cada um não diminuiu a tua disponibilidade para os outros, por outro lado nunca quiseste excluir da tua presença fraterna.

Enfim, também nesta carta passamos do sublime ao banal e fica confirmado que, também na Pastoral Universitária, a linguagem económica vai expandindo o seu domínio retórico e intelectual… Esperemos que, na senda de Chiara Lubich e de muitos outros que admiras e cujo testemunho partilhaste connosco ao longo destes anos, a economia que se expanda seja a da comunhão para que possamos saciar o Mundo faminto e sequioso material e espiritualmente.

In testimonianza della verità e per la maggiore gloria di Dio, questa carta fu scritta nella città di Porto e letta nella Chiesa del Sacro Cuore di Gesù del Seminario di Vilar, nel settimo giorno del mese di giugno, nell’anno Duemila quindici dalla nascita di Nostro Signore Gesù Cristo.

Ana Paula Coutinho
Luís Carlos Amaral
Pedro Teixeira

Leave a Reply

css.php